Neste mês de Maio Amarelo, somos convidados a refletir sobre a segurança no trânsito. Mas hoje, minha intenção não é discorrer sobre leis, estatísticas ou crimes. Minha fala se volta para algo que transcende qualquer lei ou número: a dor. É a dor que testemunho, que sinto e que vejo diariamente em meu trabalho como Delegado de Polícia.
No cotidiano do trânsito, frequentemente nos perdemos em discussões sobre regras, direitos e deveres. Contudo, esquecemos o mais fundamental: o outro. Aquela pessoa no carro ao lado, na moto à frente, ou atravessando a rua. Cada indivíduo carrega consigo uma história, uma família, sonhos e planos. E, lamentavelmente, por uma fração de segundo, por uma escolha imprudente, toda essa existência pode ser abruptamente interrompida.
Com mais de 17 anos dedicados à segurança pública, minha rotina profissional me levou a inúmeras cenas de acidentes e ao atendimento de incontáveis famílias. Vi o desespero estampado nos olhos de pais que perderam um filho. Senti o abraço apertado de viúvas que, de repente, se viram sozinhas, com o futuro desfeito. Ouvi o choro inconsolável de crianças que, em sua inocência, não conseguem compreender por que o pai ou a mãe não voltará mais para casa. Não há palavras que possam descrever o vazio que se instala, a ausência que ecoa em cada canto do lar, em cada lembrança.
Essa é uma dor que não cicatriza. É a cadeira vazia à mesa de jantar, a fotografia que se observa com saudade e um nó na garganta. É a vida de uma família inteira que é destruída, não por um desastre natural, mas pela falta de atenção, pela pressa, pela imprudência de alguém que simplesmente não enxergou o outro.
Como Delegado, minha função é investigar e buscar a justiça. Mas, antes de qualquer título ou dever, sou um ser humano. E presenciar essa dor, essa devastação, me impulsiona a fazer um apelo sincero a cada um de vocês: por favor, enxerguem o outro. Enxerguem a vida que está em jogo. Enxerguem a família que pode ser desfeita. Enxerguem a dor imensurável que suas escolhas no trânsito podem causar.
O Maio Amarelo é mais do que uma campanha; é um lembrete, um grito, um apelo urgente. No trânsito, enxergar o outro não é apenas um gesto de gentileza; é um ato de amor, um ato de responsabilidade. É a atitude que salva vidas. É o cuidado que preserva famílias. É a consciência que evita que mais uma cadeira permaneça vazia. Pense nisso. A vida de alguém, e a paz de uma família, está literalmente em suas mãos.
